Ariano Suassuna agora é, por lei, patrono da cultura do Recife. A sanção aconteceu na última semana de setembro e chega num momento simbólico: em 2027 o escritor completaria 100 anos, e a cidade que ele adotou como casa já começa a se preparar para marcar a data.
Para quem não acompanha de perto o universo literário nordestino, vale explicar por que esse nome pesa tanto. Suassuna não foi só escritor. Foi dramaturgo, poeta, professor, artista plástico e advogado, e ainda assim talvez seja mais lembrado por uma única obra, “O Auto da Compadecida”, que já virou peça, filme e novela.
O que diz a lei
O prefeito do Recife, Victor Marques, descreveu a homenagem como um gesto que só formaliza algo que a cidade já sentia. “Esse é um ato representativo, simbólico e formal de algo que a cidade já vive”, disse, ao sancionar a lei.
Ele também adiantou que o centenário de 2027 deve vir acompanhado de uma celebração maior. “Ariano, que é um grande nome da cultura, da literatura brasileira, não só nordestina, brasileira, e ano que vem é o centenário dele, então, com certeza o Recife, que era a sua casa, vai fazer uma bonita e bela homenagem.”
Quem foi Ariano Suassuna
Suassuna nasceu em João Pessoa em 1927, mas foi no Recife, para onde se mudou em 1938, que construiu praticamente toda a carreira. Formou-se em Direito na capital pernambucana e foi ali que começou a escrever.
Ao longo de quase sessenta anos de produção, ocupou cadeiras na Academia Brasileira de Letras e também nas academias paraibana e pernambucana. Teve parceiros de peso em projetos culturais e educacionais, caso de Hermilo Borba Filho, Paulo Freire e Francisco Brennand.
O Movimento Armorial, explicado de forma simples
Se tem um legado que resume o projeto de vida de Suassuna, é o Movimento Armorial, lançado por ele no Recife em outubro de 1970. A ideia era criar uma arte erudita genuinamente brasileira, mas partindo da cultura popular nordestina, não imitando modelos de fora.
Suassuna via o folclore como algo vivo, não como peça de museu. Por isso o Armorial misturou literatura, música, teatro, dança, artes plásticas e xilogravura numa linguagem só, sempre com os pés fincados nas tradições sertanejas.
O amor “de A a Zélia”
A cerimônia de sanção teve a presença de João Suassuna, neto do escritor, que falou sobre o que a homenagem representa para a família. “A gente ter efetivamente sedimentado, não mais só no coração, mas na alma do povo recifense, Ariano como patrono da cultura de Recife.”
João também lembrou de Dona Zélia, companheira de Ariano por 67 anos, e de como ela mudou o rumo da obra dele. Antes de conhecê-la, Suassuna escrevia só tragédias. “Foi Zélia quem inspirou o riso, a graça, a leveza de Ariano”, contou o neto, citando uma frase que o avô repetia. “Quando eu conheci Zélia foi como se meu coração e minha alma tivessem se aberto para a vida e para a alegria do mundo.”
Com o centenário batendo na porta, a expectativa é que 2027 traga uma programação à altura do nome que o Recife acabou de oficializar como seu.