Crédito: André Seiti
Cícero Alves dos Santos nasceu em 1947 em Nossa Senhora da Glória, no sertão de Sergipe, filho de lavradores. O apelido veio ainda criança, pela fascinação em ouvir histórias e causos dos mais velhos da cidade. Virou Véio antes de virar artista.
A primeira matéria-prima foi cera de abelha. Com ela, ainda menino, moldava bonecas nos intervalos entre uma tarefa e outra. A mudança para a madeira veio depois, e foi essa escolha que definiu o resto da trajetória.
Dar vida ao que já morreu
Véio nunca derruba uma árvore. Todo o material que usa vem de tronco já caído, madeira que a mata descartou sozinha. É esse o sentido por trás da frase mais repetida sobre seu trabalho. “Dou vida ao que já está morto”, diz ele, quando perguntado como escolhe a matéria-prima.
Na prática, isso significa duas formas de esculpir. Uma parte da obra nasce do que ele chama de tronco aberto, em que a escultura segue a forma que a própria madeira já sugere. A outra vem do tronco fechado, entalhado a partir da imaginação, sem ponto de partida na forma natural da peça.
Do imaginário do sertão sergipano saem curupiras, cobras, bichos de três cabeças e figuras humanas, um repertório que mistura crença popular, memória de infância e observação do cotidiano do sertão.
O Museu do Sertão
Em Feira Nova, cidade a cerca de 98 km de Aracaju, Véio construiu o Museu do Sertão ao lado do próprio ateliê. São cerca de 17 mil obras reunidas num espaço dedicado a preservar a cultura e a memória do povo sertanejo, montado e mantido por ele mesmo ao longo de décadas.
O reconhecimento institucional veio em paralelo. Véio recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe e, em 2017, o Prêmio Itaú Cultural 30 Anos, marco na trajetória de um artista autodidata que levou décadas para sair do circuito regional.
De Sergipe para o Brasil e o exterior
A obra de Véio já circulou por boa parte dos museus brasileiros e por exposições internacionais, incluindo mostras na França e na Itália. Em 2024, reuniu mais de 230 peças na primeira individual dele na região Norte do país, na CAIXA Cultural de Belém.
Agora é a vez do Rio de Janeiro. O Museu do Pontal, uma das maiores coleções de arte popular brasileira em exibição permanente no país, recebe a maior retrospectiva já organizada sobre o trabalho do artista sergipano.
Onde: Museu do Pontal, Rio de Janeiro
Quando: 29 de agosto a 30 de novembro